Sentia-me atraído por qualquer coisa que ia além da beleza quantificável e superficial, por algo de mais profundo e absoluto. Da mesma maneira que há quem idolatre secretamente os dilúvios, os abalos de terra ou os apagões, também eu preferia aquele indefinível não-sei-quê dirigido à minha pessoa pelas representantes do sexo oposto. A esses sinais vou chamar "magnetismo", à falta de uma palavra melhor. Uma força de atracção que, goste-se ou não, nos atrai sem apelo nem agravo e toma conta de nós.
Como o aroma de um perfume, seria talvez a comparação mais aproximada. Talvez nem mesmo o mestre perfumista consiga explicar por que motivo uma combinação de fragrâncias em concreto possui um determinado poder de sedução. Ainda que, cientificamente, seja difícil de explicar, a verdade é que a combinação de certas fragrâncias logram atrair o sexo oposto como acontece com o odor dos animais durante o período do cio. Um determinado aroma pode exercer um forte domínio sobre cinquenta pessoas, num total de cem. Um outro odor agradará às cinquenta restantes. Contudo, existem igualmente essências capazes de excitar loucamente os sentidos de apenas duas ou três pessoas. E eu sou um dos que tem a percepção de reconhecer automaticamente esse aroma especial. Quando tal acontece, sentia o desejo de me aproximar das mulheres que exalavam o dito perfume e dizer-lhes: "Olha que eu compreendo, sabes? Os outros não se deram conta, mas eu, sim".
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Hoje a vida era boa, pois essa trama toda até aqui se deu a favor dela. É que tudo concorria pra mudar a trajetória de Tia Amélia para sempre, vida agora de arrependimento e de um tantão de alegria. Ai, Ernesto! Quantas pragas rogadas em vão! Lágrimas à toa. Daí em diante foi ser esse sorriso assim, carregado de choro e de uma boa vontade de morrer, para quem sabe conseguir ficar perto dele e começar tudo de novo, mesmo que fosse só assim, na base das almas mesmo. Seria bem melhor tirar a danação do corpo pra serem apenas pingos de luz na imensidão.
Agora era esquecer a vida que até ali não lhe dera descanso.
Agora era esquecer a vida que até ali não lhe dera descanso.
Desde que o samba é samba
Fizemos do corpo a coisa mais bela que se tem na vida, pois ele é a sua única razão de ser. Então espalmem a mão e recebam a minha pele quente, estiquem a língua para lamber o meu suor-purpurina, abram os braços, as pernas para o nosso calor se fundir ao seu, já que o amor da criação artística não é somar, dar ou repartir. É doar.
Alguém que me fale assim de amor...
"Gosta sempre de mim. Imagino o frio que aí estará, a nossa casa que me hei-de lembrar sempre, apesar de nunca mais voltarmos para lá, o porteiro, a rua, os móveis, a cozinha, a cama com o cobertor ao meio, as gravuras, e vejo como fui feliz aí contigo, como tenho sido sempre feliz contigo, como gostaria de voltar, de voltar depressa para poder ver-te, tocar-te, falar-te, meter a minha chave na fechadura do teu corpo, a língua na tua boca, apertar-te o peito com as mãos, morder-te o pescoço, voar, lembro-me de pormenores absurdos, do sinal do peito do teu pé, do teu dente de ouro, do canal da tua nuca, e gosto absurdamente de todos: minha senhora, eu amo-a. Se não a conhecesse persegui-la-ia pelas ruas com propostas sórdidas e veementes. Recordo-me do primeiro dia em que a vi, do seu perfil de Boticelli, recordo-me do ano seguinte na praia, do seu cabelo preso atrás e da sua risca ao meio, do sei aspecto de retrato de Ingres, recordo-me do seu cabelo cortado e do seu ar de midinette, e amo perdidamente todas as suas encarnações, sem poder escolher entre elas. Amo a sua gravidez, os seus gestos, os seus sorrisos e as suas fúrias. Amo as suas zangas e a solenidade calada e digníssima dos seus amuos. Amo as suas recriminações e os seus beijos. E amo o seu filho, o filho de Vossa Excelência, meu amor.
António"
António"
Rehka Merchant, perdeste-te no caminho do céu ou o que foi que te aconteceu?
"Quando estiveste doente, eu não pude ver-te, para não fazer escândalo, tu sabias que eu não podia, que eu me mantive afastada por amor a ti, mas depois castigaste-me, serviste-te disso como pretexto para me deixares, como nuvem atrás da qual te escondesses. Disso e também dela, da mulher de gelo. Sacana. Agora que estou morta já me esqueci como se perdoa. Amaldiçoo-te meu Gibreel, que a tua vida seja um inferno. Inferno, porque foi para lá que me mandaste, raios te partam, o inferno de onde vieste, demónio, e para onde vais, meu palerma, goza bem o teu banho de sangue. A maldição de Rehka; e a seguir, versos numa língua que ele não conhecia, toda aspereza e sibilância, e nos quais julgou distinguir, mas talvez fosse só impressão, a repetição do nome Al-Lat."
Velutha encolheu os ombros e levou a toalha para lavar. E enxaguar. E bater. E torcer. Como se fosse o seu cérebro ridículo e desobediente.
Tentou odiá-la.
Ela é uma deles, disse de si para si. Só mais uma deles.
Não conseguiu.
Ela fazia covinhas fundas quando sorria. Os seus olhos vagueavam sempre por outras paragens.
A loucura esgueirou-se por entre uma fenda na História. Um momento bastou.
Tentou odiá-la.
Ela é uma deles, disse de si para si. Só mais uma deles.
Não conseguiu.
Ela fazia covinhas fundas quando sorria. Os seus olhos vagueavam sempre por outras paragens.
A loucura esgueirou-se por entre uma fenda na História. Um momento bastou.
You call yourself a free spirit, a "wild thing", and you're terrified somebody's gonna stick you in a cage. Well baby, you're already in that cage. You built it yourself. And it's not bounded in the west by Tulip, Texas, or in the east by Somali-land. It's wherever you go. Because no matter where you run, you just end up running into yourself.
O jogo
E eles, que liam tantos artigos e ouviam tantas conferências, não se concediam nem ao tempo nem ao esforço de se fortalecerem contra o medo, de combaterem neles mesmos o medo da morte, viviam a tremer e não acreditavam em amanhã nenhum.
Choke, asfixia
A conclusão era: isto não seria nada de especial se fosses lindo e sexy.
A conclusão era: num mundo onde toda a gente tinha de ser sempre bonita, este gajo não era. O macaco não era. O que eles estavam a fazer não era.
A conclusão era: não foi a parte do sexo da pornografia que agarrou o estúpido do fedelho. Foi a confiança. Foi a coragem. A completa falta de vergonha. O conforto e a honestidade genuína. A frontalidade de estar pura e simplesmente ali e dizer ao mundo: Iá, foi assim que escolhi passar uma tarde livre. A posar aqui com um macaco a pôr-me castanhas pelo cu adentro.
E estou-me completamente a cagar para o meu aspecto. Ou para o que tu pensas.
Por isso aguenta-te.
Ele estava a agredir o mundo, agredindo-se a si próprio.
(...) Liberdade não é a palavra certa, mas é a primeira que me vem à cabeça.
A conclusão era: num mundo onde toda a gente tinha de ser sempre bonita, este gajo não era. O macaco não era. O que eles estavam a fazer não era.
A conclusão era: não foi a parte do sexo da pornografia que agarrou o estúpido do fedelho. Foi a confiança. Foi a coragem. A completa falta de vergonha. O conforto e a honestidade genuína. A frontalidade de estar pura e simplesmente ali e dizer ao mundo: Iá, foi assim que escolhi passar uma tarde livre. A posar aqui com um macaco a pôr-me castanhas pelo cu adentro.
E estou-me completamente a cagar para o meu aspecto. Ou para o que tu pensas.
Por isso aguenta-te.
Ele estava a agredir o mundo, agredindo-se a si próprio.
(...) Liberdade não é a palavra certa, mas é a primeira que me vem à cabeça.
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